PAULO NOZOLINO E STÉPHANE DUROY, J’ÉTAIS LÀ., 2015

 

 

 

Paulo Nozolino e Stéphane Duroy

J’étais là.

Fotografia de Paulo Nozolino e Stéphane Duroy

Guingamp: Éditions GwinZegal / Novembro 2015

Francês / 19,0 x 27,0 cm / 32 pgs.

Dupla brochura, em paralelo, cosido

ISBN: 9791094060124

 

 

 

J'YETAIS

 

 

 

“J’étais là. J’y étais. Justement là, où rien ne se passait. Réussir cela fut une longue histoire.”

Eugène Guillevic, Paroi, Éditions Gallimard, 1970

 

 

Paul Cottin, diretor do Centre d’Art et de Recherche GwinZegal, em Guingamp, na Bretanha (França), efetuou em 2010 um convite ao Paulo Nozolino para fotografar a região: uma “carta aberta”, sem pressões ou exigências. Foi o segundo projeto, depois de um primeiro desencadeado em 1999.

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Paulo Nozolino-Paul Cottin

Paulo Nozolino e Paul Cottin, Galeria Quadrado Azul, Lisboa, 2013

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“A primeira viagem foi ao radar…”, num momento difícil, como disse Nozolino numa conversa aquando da exposição “Gloom”, sobre este projeto, a exposição que inaugurou o novo espaço da Galeria Quadrado Azul, na Rua Reinaldo Ferreira, 20, em Lisboa, em 6 de abril de 2013. Uma nova viagem, dois anos depois, “Levou dois anos, podia ter levado 10.”

Referiu Paul Cottin, naquela conversa, que “quando comecei a trabalhar no mundo da arte, questionei-me se a fotografia é mesmo uma arte, se são artistas. Com o Paulo [Nozolino] tive a certeza … O Paulo tem esta singularidade de ver as coisas de uma maneira muito forte. Também o Stéphane [Duroy], que conheci na mesma altura, 1999.”

“O Stéphane é talvez o único homem que tira fotografias como eu e é contemporâneo”, referiu Nozolino, “somos amigos”.

Stéphane Duroy nasceu em Bizerte, na Tunisia, em 1948; é francês e vive em Paris, onde Nozolino (Lisboa, 1955) também já residiu.

Para Cottin, estas fotografias, este olhar, reflete “A relação do tempo na fotografia. A questão da ausência. Há muita ausência na fotografia. A fotografia para além do que mostra, mostra uma certa ausência.” E Nozolino acrescenta: “trabalhamos sobre a história, sobre o pós-Holocausto e como isso modifica [se reflete] agora”.

O olhar de ambos está centrado na dor, no desespero, no aniquilamento, na decadência, na perda: “O sentido da perda. Todos os dias perdemos algo.”

Cottin complementa: “É a vida é a morte, é a morte é a ausência, é a ausência é a vida.” Esclarece: “Morte não num sentido mórbido, mas da globalidade, do mundo. No sentido mais profundo: um concentrado de ausência”. E acrescentaria: “As pessoas não põe em causa o que as rodeia, o que está à volta delas. Estas fotografias vêm pôr em causa.”

Nozolino e Duroy percorreram a Bretanha de automóvel, mais de 1000 Km: olhar, procurar, ver, fotografar.

No primeiro desafio, trabalhar a religião na Bretanha, parti com o mínimo de «à-priori». O tempo sempre a mudar, estradas pequenas, muita erva. De repente, chegamos a uma aldeia. Um pináculo com 30 m de altura, a igreja está deserta, sem imagens, sem nada.

O Stéphane conduzia, conhecia esta região melhor do que eu, não olhei para nenhum mapa. Ao fim da primeira viagem, resolvi esquecer a ideia original e esquecer onde estou. Vem um vazio. Começamos a pensar em nós. O que sentimos. O que vivemos.

… Parávamos em casas abandonadas, castelos a cair de podre. Precisamos de algo a que agarrarmos; que fotografarmos. Estamos à procura de algo que não existe. Estamos a trabalhar com a ausência. A ausência paira sobre toda a Bretanha. Teve muita riqueza, a Companhia das Índias… Tudo desapareceu. As pessoas vão aos centros comerciais, as aldeias são fantasmas. Nós à procura do horrível, do lixo, das coisas queimadas, partidas, horríveis.”

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Paulo Nozolino-Gloom-2013-Fot_Antonio_Bracons (1)

Aspeto da exposição Gloom, na parede de fundo a fotografia do urinol (Bégard, 2010)

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Neste trabalho senti-me mais perto das coisas. Este urinol [referência a uma das fotografias, Bégard, 2010, não identificada na exposição] é para mim tão importante, torna-se uma coisa enorme, como um altar numa igreja. É como se estivesse a fazer uma coisa sobre a glorificação do nada. É o que sinto cada vez mais como fotógrafo, como pessoa.

Parto para os sítios para fazer um retrato do sítio. E não faço. Ia fotografar a Bretanha, mas não me interessa fotografar a Bretanha, interessam-me as pessoas da Bretanha.

O Cottin tem muitas caixas de fotografias da Bretanha: séc. XIX, séc. XX, estamos no séc. XXI. Está para além do tempo.

Sentir, pensar com o coração. Sentir, estar aberto. Cada vez menos fotografias. É igual à Ucrânia, à Lituânia. Têm alguma coisa a ver com o território. Mas mais com o estado interior da alma. É isto que [me enche]. Pode significar tantas coisas. É uma reflexão sobre mim próprio.

O mundo está-se a desfazer, culturalmente está-se a desfazer, nós estamos a desfazer-nos. A decadência das coisas. O que me interessa é a decadência das coisas. Ver as coisas a morrer. … Eu estou a envelhecer, o mundo [está] a envelhecer.”

Sobre o processo de fotografar, referiu:

A fotografia é de ver. As pessoas estão instruídas para ver imagens, mas tudo se resume ao que nós sentimos.

O primeiro olhar é sempre o melhor. Às vezes vejo muito rapidamente, outras vezes levo mais tempo a ver… dez minutos, mais. Por vezes, vinte anos.”

E acrescenta:

Já não deixo rolos seis meses por revelar. Tenho mais urgência em ver.

Falta-me o tempo”.

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[Nozolino / Duroy]

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Momentos depois de escrever este texto, leio o prefácio que Eduardo Lourenço, esse grande vulto da cultura, profundo conhecedor do pensamento e da consciência de Portugal e da Europa, escreveu para o 1.º volume de “Cultura. Tudo o que precisa de saber”, de Dietrich Scwhanitz, editado pela D. Quixote para o Expresso, 2016. Num texto intitulado “Da cultura ou do imemorial e a dança do tempo” (pág. 9), refere:

Foi neste tempo sem morte própria que nós entrámos sem sequer nos darmos conta disso. É esta uma das leituras do tão falado «fim da história», em todo o caso da que foi a nossa, até que os relógios onde líamos um destino com rosto ainda humano pararam ao mesmo tempo, numa aldeia da Polónia e numa cidade do Japão. Este acontecimento não foi como a batalha de Waterloo ou a invenção da máquina a vapor, mas um momento de história e da História, mas uma outra espécie de tempo, uma eternidade vazia, modelo de todo o tempo futuro vivido de olhos inutilmente abertos. O horror puro é invisível.”

Este texto (não o sendo) pareceu-me escrito para as fotografias de Nozolino.

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As citações referidas têm por base as anotações do autor na conversa referida.

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