O FASCÍNIO DE UMA DESCOBERTA – III – O CALOTIPO DE TALBOT E DE BAYARD

 

UMA ALTERNATIVA: O CALOTIPO

A apresentação de 7 de Janeiro de 1839 veio imediatamente alertar duas outras figuras: o inglês William Henry Fox Talbot e o francês Hippolyte Bayard. Se o primeiro tinha já desenvolvido um processo com fins e objectivos semelhantes, o segundo sentia-se atraído e desenvolvia já há algum tempo os seus trabalhos de pesquisa. Antes deles, porém, o brasileiro Hercules (ou Hercule) Florence já havia descoberto o calotipo.

 

WILLIAM HENRY FOX TALBOT

Fox Talbot (AAVV, 1989: 36-49; Newhall, 1988: 19-20; Frizot, 1998: 59-61) nasceu em Fevereiro de 1800 em Melbury. Estudou nas Universidades de Harrow e de Cambridge, onde recebeu o grau de Master of Arts em 1826. Era um sábio: dominava as ciências exactas e naturais, a história antiga, a arqueologia, a linguística e as belas-artes. Publicou artigos de fundo de matemática e física, incluindo experiências sobre a natureza da luz, conhecia o hebreu, era apaixonado pelos hieroglifos, decifrou inscrições babilónicas… Em 1832 foi eleito membro da Royal Society. Nos primeiros dias de Outubro de 1833 ao longo de um passeio pelas margens do lago de Côme, em Itália, desenhou algumas imagens com o apoio de uma câmara obscura, que não o satisfizeram minimamente, vindo-lhe à ideia imprimi-las sobre papel de forma duradoura.

 

Talbot, fot J Moffat 1864

J. Moffat: retrato carta-de-visita de William Henry Fox Talbot, 1864.

É assim que a partir de Janeiro de 1384, regressado a Inglaterra, começa a trabalhar no seu sonho: começa por utilizar o nitrato de prata, que aplica a pincel. A imagem obtida é muito ténue e tenta então o cloreto de prata no momento da sua formação, na própria folha de papel. Os resultados obtidos são muito mais satisfatórios; descobre de seguida uma forma de tornar os sais de prata praticamente insensíveis, criando um excesso de cloreto de sódio (muitas destas imagens ainda se conservam hoje em estado razoável): em cerca de um ano, conseguia já imagens obtidas por contacto, de folhas e outros objectos, e expondo ao sol.
Talbot prossegue as suas buscas ao longo do Verão de 1835, obtendo diversos ‘desenhos fotogénicos’ (Photogenic Drawings), inclusivé com a ajuda da câmara obscura, atingindo tempos de exposição reduzidos, de 10 e 15 minutos. As imagens obtidas eram negativas, no entanto era perfeitamente possível obter positivos imprimindo-os por contacto em folhas sensibilizadas: cada imagem negativa permitia assim a impressão de múltiplas imagens positivas. Talbot atingia uma das características fundamentais da fotografia. No entanto, Talbot não teve ainda o alcance da sua descoberta pois, como diz Eder, “os experimentos fotográficos constituíram meramente um problema lateral para Talbot, que estava então particularmente interessado em investigações matemáticas e físicas, especialmente no estudo de fenómenos ópticos em certos cristais e no fenómeno da interferência luminosa” (Frade, 1989: 10-R – 12R); pelo que os seus trabalhos iriam ser praticamente interrompidos durante alguns anos.
O conhecimento da comunicação de Arago, de 7 de Janeiro de 1839, vem apressá-lo no sentido de divulgar o seu invento: escreve de imediato àquele, e a Biot, membro da Academia das Ciências, em 20 e 21 de Fevereiro, bem como aos seus correspondentes, enviando amostras dos seus ‘desenhos fotogénicos’. Envia também diversos a Faraday, secretário da Royal Institution, que os expõe na biblioteca da instituição em 25 de Janeiro, obtendo enorme sucesso. Talbot apresentá-los-á de novo no dia 31 do mesmo mês na Royal Society, apresentando uma memória intensivamente preparada em escassas semanas, por ele publicada num fascículo de catorze páginas: “Onde se dá conta da arte do desenho fotogénico ou processo pelo qual os objectos naturais podem-se traçar eles mesmos sem ajuda do lápis do artista”. Esta é a primeira publicação específica sobre a fotografia, apresentando as suas fontes e experiências, êxitos e insucessos, bem como traça uma perspectiva de futuro para a fotografia notável. Nela dá ainda conhecimento de as imagens negativas poderem ser utilizadas como objecto a copiar, dando assim a ideia de negativo.

 

Talbot-Fragmento de bordado 1837-39

William Henry Fox Talbot, fragmento de bordado, “Photogenic Drawing”, 1837-39.

Talbot continua no entanto a aperfeiçoar o seu processo. Depois de utilizar como fixador o cloreto de sódio (sal de cozinha) e o iodito de potássio, Herschel, que descobriu em 1819 a capacidade do hipossulfito de sódio para dissolver o cloreto de prata, dá-lhe, em 1 de Fevereiro de 1839, a ideia de utilizar este sal, o qual ainda hoje é utilizado na revelação química (Frizot, 1998: 27).

 

Talbot-Plantas-1839

William Henry Fox Talbot, Plantas, “Photogenic Drawing”, c. 1839.

As pesquisas continuam e em Setembro de 1840, Talbot descobre uma forma de reduzir significativamente – para um centésimo – o tempo de exposição, através da imagem latente – que tem de ser revelada para se ver. Em 8 de Fevereiro de 1841 regista a patente do seu processo, que intitula de calotipo, do grego “kalos”, belo: o Calotype Photographic Process.

 

Talbot-The pencil of nature-1844

The Pencil of Nature, 1844.

Talbot publicaria o primeiro álbum ou livro de fotografia, The Pencil of Nature, entre junho de 1844 e abril de 1846.

 

HIPPOLYTE BAYARD

Hippolyte Bayard (AAVV, 1839: 50-61) nasce em 20 de Janeiro de 1801 em Breteuil-sur-Noye, efectua estudos clássicos exercendo desde logo as funções de escrivão de notário. Entre 1827 e 1829 vai para Paris, com o seu amigo Edmond Geoffroy, procurando a vida de uma grande cidade: torna-se funcionário no Ministério das Finanças, o seu amigo ingressa na Comédie – Française. Os dois começam assim a frequentar o meio artístico vivo, curioso de tudo e de uma disponibilidade permanente. Bayard tem assim possibilidade de pintar e desenhar, tal como Geoffroy, apaixonado pela pintura, o que os leva a fazer amigos no meio das belas-artes.

 

Bayard-Autoretrato-1863

Hippolyte Bayard: autoretrato,
prova positiva de albumina a partir de negativo em colódio, c. 1863.

Bayard deixa-se envolver pelo ambiente que o rodeia: cria amizade com Amaury-Duval, aluno de Ingres, no atelier de quem se encontra com pintores, gravadores e litógrafos. Conhece as técnicas e os processos do momento. A câmara obscura é-lhe familiar, possivelmente desde a casa paterna e desde que algumas palavras deixam antever parte do segredo do diorama de Daguerre num artigo no Journal des Artistes, de 27 de Setembro de 1835, essas pesquisas tornam-se o centro das conversas, embora ignorando-se a natureza exacta da descoberta de Daguerre. Um dos seus amigos, o pintor Grévedon, teve conhecimento dos primeiros daguerreótipos.
O anúncio de 7 de Janeiro de 1839, feito por Arago desperta-o e inicia as suas primeiras experiências analisando de forma sistemática, a influência da luz em diversas substâncias químicas. Apesar de não ter formação científica, a curiosidade e inteligência vão ajudá-lo. É assim que em 5 de Fevereiro pode apresentar ao físico César Desprets, membro da Academia de Ciências, as suas primeiras provas sobre papel, em negativo: “dessins photogénés”.

 

Bayard-2estatuas nos telhados de Paris-1839

Hippolyte Bayard: duas estatuetas fotografadas sobre os tectos de Paris,
positivo directo sobre papel, 1839.

A sua técnica é diferente: o papel impregnado com cloreto de prata é exposto à luz até ficar negro. É então mergulhado em iodito de potássio e exposto na câmara. A luz aclara o papel na proporção da sua intensidade, obtendo-se positivos directos únicos (Newhall, 1988: 25).
Bayard prossegue os seus trabalhos. Breves anotações manuscritas no seu caderno permitem seguir o seu percurso: “Em 20 de Março obtenho imagens directas [positivas] na câmara escura [obscura; são sobre papel e de grande qualidade]. A 22 idem, mostrar algumas ao Sr. Grévedon e ao Sr. Saint. Foi necessário cerca de uma hora. A 6 de Abril, 30 ou 35 minutos. 13 de Maio Sr. Biot. A 20 Sr. Arago. A 10 de Junho num quarto de hora para as estátuas e vinte minutos para as paisagens.” (AAVV, 1989: 52). Em pouco mais de quatro meses, Bayard desenvolve o processo fotográfico com imagens positivas directas e com imagens negativas que vê imediatamente poderem ser utilizadas para imprimir múltiplos positivos por contacto, o que executa. E entretanto, como registado, a 20 de Maio, apresenta o seu processo a Arago.

 

HERCULES FLORENCE

Um dos casos mais curiosos é o de Hercules Florence, nascido em França em 1804. Embora não tenha entrado na discussão da autoria e divulgação da fotografia, ele vai descobrir a fotografia, como curiosidade, antes de Talbot e de Bayard, no entanto, não fará qualquer esforço para a divulgação da sua descoberta. Instala-se com a família em Campinas, S. Paulo, no Brasil, onde vive cerca de 50 anos e onde falecerá em 1879.
Em 1870 refere que “em 1832, sem que ninguém pensasse isso anteriormente, ocorreu-me a ideia de imprimir com a luz do sol”. Dos seus manuscritos que sobreviveram até aos nossos dias, datados de 1829 a 1837, é possível ler: “Neste ano de 1832, em 15 de Agosto, enquanto deambulava na minha varanda, ocorreu-me a ideia que talvez fosse possível capturar imagens na câmara obscura através de uma substância que mudasse de cor pela ação da luz. Esta ideia é só minha, porque não me chegou ainda qualquer indicação sobre isto de lado nenhum”.
Em 20 de Janeiro de 1833 Florence descreve no seu caderno de notas a sua primeira experiência fotográfica: usando uma câmara obscura com uma lente adicional e uma folha de papel impregnada em nitrato de prata, com uma exposição de quatro horas obteve uma imagem da sua janela, em que se via os telhados das casas vizinhas e parte do céu. Também se refere a fotografias tiradas posteriormente, onde se vê a prisão local, a estátua de Lafayette e outras vistas desde a sua janela. Sabemos que produziu negativos, naturalmente, e positivos, tendo sobrevivido algumas impressões por contacto de um diploma e de etiquetas farmacêuticas feitas antes de 1837.
Dos seus apontamentos sabemos também que usou o termo “fotografia” para nomear as suas imagens, pelo menos dois anos antes de Herschel o sugerir a Talbot (Newhall, 1988: 25), o que é notável, por um lado, por outro, representativo de quanto intuitivo é o processo, o que explicará, em parte, o sucesso que veio a ter.
Posteriormente irá referir que “sete anos depois soube que havia outro país a desenvolver o mesmo sistema e que teve mais sucesso que eu”. No entanto, num artigo publicado em 1839 referiria “Não vou disputar a minha descoberta com ninguém, porque dois povos podem ter a mesma ideia” (Batchen, 1999: 44-45).
Florence descobriu assim a fotografia. Como Niépce, mais de uma década antes, mas que abandonara por não chegar a conseguir obter positivos. Como Talbot ou Bayard alguns anos depois. Mas o fascínio de Florence era pessoal, uma curiosidade. Sem a visão de progresso e o espírito comercial que poderiam ter estimulado a patente, a divulgação, o lucro. Com certeza, o ambiente colonial e a comunidade francesa que se encontrava em Campinas (a estátua de Lafayette pressupõe a existência de uma comunidade que homenageia um vulto), corresponderiam a um ambiente cultural e científico que não seria capaz de ver naquela descoberta mais que uma curiosidade, incluindo o próprio. Por outro lado, ainda que tal não fosse verdade, não seria fácil a Florence deixar Campinas para vir à Europa divulgar a sua descoberta.

 

 

BIBLIOGRAFIA

AAVV (1989), 1839, La Photographie Révélée. Paris : Centre National de la Photographie e Les Archives Nationales. Catálogo da exposição.
AAVV (1994), Dictionnaire Mondial de la Photographie. Paris : Larousse.
BATCHEN, Geoffrey (1999), Burning With Desire – The Conception of Photography. Cambridge, Massachussets: The MIT Press.
FRADE, Pedro Miguel (1989), ”1839: As Histórias de Um Segredo”. In: Expresso, A Revista, 7.10.1989. Lisboa, pp. 10-R a 12-R.
FRIZOT, Michel (ed.) (1998), A New History of Photography. London: Konemann.
NEWHALL, Beaumont (1988), The History of Photography. New York, The Museum of Modern Art, 1988.

Anúncios