O FASCÍNIO DE UMA DESCOBERTA – I – OS PROTO-FOTÓGRAFOS

 

INTRODUÇÃO

Completa-se a 19 de agosto de 2014, 175 anos da apresentação pública da fotografia! Esta é a data que é comummente aceite como a data do aparecimento da Fotografia, pois foi nesta data que o segredo da grande descoberta foi divulgado.

As pesquisas e os trabalhos de Niépce e de Daguerre – e de vários antes deles – levaram à descoberta da fotografia, à criação das primeiras imagens fotográficas. Inicialmente sobre chapas de cobre, depois sobre chapas de vidro, no fim do séc. XIX, sobre película, um século depois, desmaterializadas em ficheiros de dados.

A descoberta da fotografia – este termo será mais correcto do que invenção – resulta da conjugação de múltiplas valências, as quais foram sendo adquiridas ao longo de mais de quatro séculos.
Esteticamente, era uma questão de tempo e mentalidade: o Renascimento que começara em Itália no séc. XIV, abria as portas para uma representação do real, em que a invenção da perspetiva, por Brunelleshi, no início do séc. XV, constituiu o passo fundamental.
Em sequência, a pintura perspectivada e o desenho, levaram à criação da câmara obscura: uma caixa (ou compartimento) com um pequeno orifício pelo qual a luz passa, projetando-se a imagem invertida na parede oposta. A introdução de lentes veio permitir focar esta imagem. O traçado era simples: efectuar o contorno das formas. Para a fotografia, bastava apenas substituir o papel sobre o qual se traçava por uma base que a luz pudesse imprimir, isto é, que fosse sensível à luz. E depois garantir que se conseguia fixar essa imagem, para que não desaparecesse. Era este desafio, de investigação química, que estava em jogo.
Esta desenvolvia-se em múltiplas frentes, um ideal de vários homens em vários países, com diferentes motivações e objectivos, no geral desconhecidos uns dos outros.
A descoberta da fotografia iria causar um entusiasmo global, um verdadeiro fascínio: apresentada em Agosto de 1839, nesse ano chega a quase toda a Europa, no mês seguinte já atravessou o Atlântico e estava nos Estados Unidos, e pelo menos seis anos depois já havia imagens efectuadas na China…
O fascínio desenvolveu-se depois em múltiplas frentes: desde a evolução técnica das máquinas e lentes à evolução química das emulsões e materiais sensíveis, do fotografar e ser fotografado, ficando o registo acessível para a posteridade de cada um, dos registos e levantamentos de carácter histórico, geográfico, científico… A fotografia muito rapidamente alterava a maneira de ver o mundo, tornava-o mais próximo.
Começaremos por analisar aqueles que, antes da apresentação da fotografia, sob a técnica do daguerreótipo, em 1839, pensaram a fotografia, sonharam, tentaram… Já se sentiam fascinados por ela. Depois (II), analisaremos os trabalhos de Niépce e Daguerre que conduzem à técnica apresentada, de seguida (III), uma breve passagem pelo calotipo: os percursos distintos do inglês Talbot, do francês Bayard e do brasileiro Florence… E, por fim (IV), o papel político de Arago na definição do que vai ser o processo reconhecido como o primeiro e, como tal, o único devidamente remunerado. Faremos ainda uma breve análise da expansão e dimensão atingida pelo daguerreótipo. Um processo que se irá manter activo, como quase o único, por quase duas décadas.
Salvaguardamos que, embora neste período a técnica seja o daguerreótipo e assim se referisse e não de “fotografia”, o termo viria a surgir entretanto, criado por Herschel relativamente às imagens de Talbot, generalizando-se depois a todas as imagens “escritas com luz”, de cujos termos gregos tem origem: “phôtós” + “grâphein”. Uma vez que aquele é um caso particular deste, usaremos também a expressão fotografia para o designar, sempre que não levante dúvidas da sua acepção.

 

OS PROTO – FOTÓGRAFOS

Com o estudo da sensibilidade à luz dos sais de prata pelo alemão Johann Heinrich Schulze, em 1725, estavam descobertos os princípios químicos necessários à descoberta da fotografia (Batchen, 1999: 24). Os princípios físicos eram há muito conhecidos.
É estranho o facto de só 114 anos depois desta descoberta, a fotografia ser apresentada ao público, e entretanto, durante três quartos de século, não haver notícias sobre descobertas ou investigações nesta área.
O poder fixar as imagens por elas próprias exerceu um fascínio sobre múltiplas pessoas de vários países, havendo registos desde finais do séc. XVIII aos primeiros decénios do séc. XIX, antes de 1839, de pesquisas, experiências e estudos efectuados com este objectivo ou, pelo menos, registos da ideia em si, um desejo, acreditando que a sua concretização seria possível, referiram pelo menos encontrar-se no caminho da fotografia: Henry Brougham (Inglaterra, 1794), Elizabeth Fulhame (Inglaterra, 1794), Thomas Wedgwood (Inglaterra, c. 1800), Anthony Carlisle (Inglaterra, c. 1800), Humphry Davy (Inglaterra, c. 1801-1802), Thomas Young (Inglaterra, 1803), Nicéphore e Claude Niépce (França, 1814), Samuel Morse (Estados Unidos, 1821), Louis Daguerre (França, 1824), Eugène Hubert (França, 1828), James Wattles (Estados Unidos, 1832), Hercules Florence (Brasil, 1832), Richard Habersham (Estados Unidos, 1832), Henry Fox Talbot (Inglaterra, 1833), Philipp Hoffmeister (Alemanha, 1834), Friedrich Gerber (Suíça, 1836), John Draper (Estados Unidos, 1836), Vernon Heath (Inglaterra, 1837), Hippolyte Bayard (França, 1837), José Ramos Zapetti (Espanha, 1837) (cf. Batchen, 2002: 6).
Mas, como dissemos, nem todos chegaram a produzir imagens. De acordo com o historiador Pierre Harmant, “vinte e quatro pessoas reclamaram terem sido inventores da fotografia antes de 1839 e podem ser agrupadas deste modo: sete franceses: Niépce, Bayard, Daguerre, J.-B. [Jean-Baptiste] Dumas, [Paul] Desmarets, Vérignon, [Jean] Lassaigne; seis ingleses: Talbot, o reverendo J. [Joseph] B. Read, [John] Herschel, [Andrew] Fyfe, Mungo Ponton (na secção inglesa desta lista talvez se deva acrescentar um misterioso eclesiástico que assina sob o pseudónimo de Clericus); seis alemães: [Carl] Steinheil, [Franz von] Kobell, [Albrecht] Breyer, Hoffmeister, [Frederike Wilhelmine] von Wunsch, [Jakob] Liepmann, um americano: Samuel F. B. Morse; um espanhol: Zapetti; um norueguês: [Hans Thøger] Winther; um suíço: Gerber; e finalmente um brasileiro: Hercules Florence. Grande lista para uma só descoberta em tão pouco tempo.” (Harmant, 1977: 39). De facto, é surpreendente como num mesmo período, algo exerce um fascínio tão grande em diferentes pessoas e em espaços diferentes.
Dos processos desenvolvidos por estes vinte e quatro fotógrafos, segundo o próprio Harmant, “só quatro são verdadeiramente originais” (Harmant, 1977: 40), mas a maior parte não conheceria os trabalhos de Schulze. Por outro lado, alguns conheceriam os trabalhos de outros, pois vários foram publicados em várias revistas científicas de diversos países (Batchen, 1999: 39).

 

O FASCÍNIO DE UMA IDEIA

Os trabalhos de Florence, como de todos os outros referidos, demonstram o fascínio exercido pela fotografia quando ainda era apenas ideia, o que não estará alheio ao espírito e ao desenvolvimento científico da época e à busca de aparelhos que permitam aferir a natureza sobre vários aspetos, independentemente da intervenção humana, como o termómetro para medir a temperatura, o barómetro para a pressão e, como eles, a fotografia para o registo da imagem.
É curioso como, apesar do fascínio científico e do fascínio de poder vir a fixar as imagens por si próprias, de esta ter sido tecnicamente conseguida múltiplas vezes em locais distintos, não haver qualquer empenho na sua patente, promoção e divulgação, salvo muito pontualmente, um artigo científico em várias revistas da especialidade, por vezes com traduções em várias línguas, mas com maior ênfase no processo químico que na visão de uma utilização da fotografia. Cada um tinha o seu próprio objetivo – uma utilidade particular, a pesquisa científica, ou eventualmente, a mera curiosidade – e, de início, nenhum teve a visão que a fotografia poderia ter uma importância fundamental, um papel vastíssimo e que iria ter um impacto único, um desenvolvimento rapidíssimo – na verdade, e hoje este conceito é natural: depois da ideia, vem a descoberta e depois desta, o desenvolvimento e aperfeiçoamento, sendo necessário apenas tempo: outras descobertas, por vezes aparentemente alheias, acabam por ser úteis –, iria ter múltiplas utilizações e modificar o mundo como há muito não acontecia, quer por si, quer por diversos inventos que se desenvolveram a partir dela: o cinema, a televisão, são talvez os mais diretos, inimagináveis então. Nenhum teve o sentido que poderia ser uma enorme fonte de riqueza…
De entre todos os nomes que referimos, apenas alguns sobressaem como tendo produzido imagens estáveis, algumas que ainda se preservam, constando na maior parte das obras de História da Fotografia: os franceses Joseph-Nicéphore Nièpce (com o apoio do seu irmão Claude) que assumiriam um contrato com Jean-Jacques Mandé Daguerre, aquele que viria a divulgar publicamente a fotografia, através do processo do daguerreótipo; Hippolyte Bayard que viria a reclamar também para si a descoberta da fotografia, o inglês William Henry Fox Talbot, estes dois destacando-se com um sistema diferente: a calotipia, tal como o brasileiro Hercules Florence, que a descobre ainda antes de Talbot.
Seria necessário esperar por Daguerre e pelo ano de 1839 para ser divulgada publicamente.

 

 

BIBLIOGRAFIA

BATCHEN, Geoffrey (1999), Burning With Desire – The Conception of Photography. Cambridge, Massachussets: The Mit Press.
BATCHEN, Geoffrey (2002), Each Wild Idea Idea – Writing Photography History. Cambridge, Massachussets: The Mit Press.
HARMANT, Pierre G. (1977), “Anno Lucis 1839: 1 er partie”, Camera nº 5 (Mai 1977), pp. 39-43.
NEWHALL, Beaumont (1988), The History of Photography. New York, The Museum of Modern Art, 1988.

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